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António Champalimaud
Foi considerado o maior industrial português. Comprou o Banco Pinto & Sotto Mayor e ampliou o seu império com a compra da Siderurgia Nacional. Após o 25 de Abril, e com a nacionalização das empresas que dirigia, foi para o Brasil e reergueu o seu património. Voltou a Portugal em 1992 e recuperou - com a ajuda de habilidosas movimentações de bastidores - as empresas que lhe pertenciam. No seu testamento legou 500 milhões de euros para a criação de uma fundação destinada à investigação biomédica. “Foi um grande empresário”, diz Filipe de Botton, presidente da Logoplaste. – Contrair Conteúdo De industrial a financeiro, Champalimaud foi um exemplo de empreendedorismo - e, talvez, o mais controverso empresário português. Visto como exemplo de um capitalismo descarado por parte dos políticos de esquerda, que apontam o dedo às relações amistosas que manteve com governos ditatoriais (no Brasil e em Portugal), a “velha raposa” tinha presença assídua nos “tops” das fortunas mundiais, como na lista apresentada pela revista “Forbes”. Numa das últimas edições antes da sua morte, Champalimaud viu o seu nome posicionado no 153.º lugar, com uma fortuna avaliada em 2,5 mil milhões de euros. Dotado de uma inteligência notável e vocacionada para os negócios, é considerado o maior industrial português de sempre. “Foi um grande empresário, não só em Portugal como a nível internacional”, diz o presidente da Logoplaste, Filipe de Botton. António de Sommer Champalimaud morreu em 8 de Maio de 2004, vítima de cancro. Tinha 86 anos, mas já em 1994 profetizara o seu futuro: “Estatisticamente, já devia ter morrido. Mas como isso ainda não aconteceu, continuo a trabalhar.” O mais bem sucedido e polémico empresário português teve sempre uma cortante sinceridade. Frases como “à excepção da honra, tudo se compra e tudo se vende”, ou “o 25 de Abril foi a maior desgraça que aconteceu em Portugal”, ou ainda “o CDS é, para mim, um partido de esquerda”, fazem parte do seu currículo argumentativo. Nascido em 19 de Março de 1918, a sua ascensão fulminante foi conseguida com muito trabalho, algumas jogadas de bastidores e um feliz aproveitamento das oportunidades. Com 19 anos, e devido à morte do pai, viu-se forçado a interromper os estudos para se dedicar ao mundo dos negócios. Quando toda a família defendia que se devia vender a Companhia Geral de Construções, a empresa do pai que estava tecnicamente falida, António Champalimaud foi peremptório e assumiu as rédeas do negócio. Era o filho mais velho de quatro irmãos e queria reerguer o legado do progenitor. Contou com a ajuda de Ricardo Espírito Santo Salgado e conseguiu um crédito de confiança para a dívida, à época, de 13 mil contos. De facto, do que Champalimaud precisava era da confiança de um banqueiro. A partir desta data, o crescimento patrimonial do capitão da indústria portuguesa nunca mais parou. Expandiu os negócios da empresa para Angola, dinamizou a exportação de vinho do Douro e lançou os primeiros projectos de urbanização na Quinta da Marinha, em Cascais. Mas não só a morte do pai e a confiança de Ricardo Espírito Santo foram decisivos para o nascimento de António Champalimaud como homem de negócios. O casamento com Maria Cristina de Mello, filha do presidente da CUF, e o falecimento do tio Henrique Sommer, também o foram. É que aos 24 anos herdou do tio a Empresa de Cimentos de Leiria e socorreu-se de empréstimos na Casa Bancária José Henriques Totta, gerida pelo sogro, Manuel de Mello, para adquirir, com a ajuda de Salazar, uma fábrica de cimentos na Matola, Sul de Moçambique, e fundar a Companhia de Cimentos de Moçambique. Os materiais de construção, o imobiliário e a exportação de vinhos eram os três negócios-chave do jovem empresário. Mas a intuição de Champalimaud antecipava uma nova oportunidade. Estávamos em 1944 e o governo de Salazar aprovava a Lei sobre Fomento e Reorganização Industrial. A siderurgia era prioritária. Nos anos seguintes, Salazar avançou com os estudos para a criação de uma “verdadeira indústria de metalurgia de ferro”, e António Champalimaud concorreu - e ganhou - a concessão. Em 1954 foi constituída a Siderurgia Nacional, e em 1955 Salazar publicou um alvará em que dá à empresa o exclusivo da exploração de ferro e aço. Há quem lance a crítica: Champalimaud alicerçou a sua fortuna nos interesses políticos. Aproveitou-se de Salazar e, mais tarde, de Cavaco Silva, para criar riqueza. A indústria estava controlada. Se as empresas do grupo eram as maiores clientes dos bancos e seguradoras Espírito Santo, porque não comprá-las? A resposta negativa de Ricardo Espírito Santo obriga Champalimaud a virar-se para o Norte do País, onde descobriu uma pequena seguradora com o nome “A Confiança”. A descoberta tem um pequeno pormenor por trás: o proprietário desta empresa era também dono do Banco Pinto & Sotto Mayor (BPSM). “Para vender, vendo-lhe tudo”, disse Manuel Henriques Júnior a António Champalimaud. “Não regateei o preço. “A maior qualidade de um empresário é a capacidade de antecipação”, sublinha Filipe de Botton. “Todos vemos de forma idêntica as oportunidades que existem no mercado. A diferença está naqueles que sabem apanhá-las e implementar uma estratégia a partir do que existe.” O ano de 1961 marcou a sua entrada no mundo da alta finança. Para além do BPSM e d’A Confiança, o industrial entra ainda no capital da Mundial e da Continental Seguros. O “portfolio” do maior admirador de Henry Ford ficaria completo em 1970, com a compra do Banco Português do Atlântico. “Para mim, a obra de Ford foi um guião. Sempre que fazia alguma coisa na indústria, pensava nele.” Tal como o seu “alter ego”, o corporativismo não fazia parte do seu léxico. “Sou autoritário. E relativamente afável. Não tenho é tempo.” Apesar da rudeza que sempre fez questão de ostentar em público, o empresário até demonstrou algumas características pitorescas e bem-humoradas. Exemplos? Foi sócio e dirigente de Os Belenenses e enquanto viveu no Brasil saía sempre com um “nécessaire”. “Se for raptado, sempre posso fazer a barba e lavar os dentes. Só não quero é que paguem o resgate”, justificou o empresário. Mas veio o 25 de Abril. Em Agosto desse ano, Champalimaud avisou que “o Estado não devia chatear as empresas”. Em 1975, porém, foram nacionalizados os bancos e as indústrias. O empresário rumou ao Brasil. Tinha 57 anos e a veia para o negócio intacta. Privado da sua fortuna em Portugal, conseguiu reerguer o seu património, através da exploração agrícola, criação de gado e produção de cimento. Em poucos anos, passou a dominar a produção cimenteira, incluindo a das ex-colónias africanas. “A seguir à revolução, teve de recomeçar a vida e demonstrou uma capacidade de empreender que não é vulgar em Portugal”, afirma Filipe de Botton. Constituiu a cimenteira Soiecom, uma das maiores do Brasil, e dedicou-se à agro-pecuária. Apelidaram-no de “vilão”, “capitalista” e “rockfeller”. O regresso a Portugal só se concretizou no início da década de 90. Até lá, Champalimaud foi pressionando o governo de Cavaco Silva com habilidosas jogadas de bastidores. Ganhou o processo pela incorrecta nacionalização do Banco Pinto & Sotto Mayor e pela confiscação dos seus bens pessoais - e encostou o Governo à parede. Cavaco Silva defendia as privatizações e Champalimaud queria ter uma participação activa neste processo. Assim foi. Recuperou a Mundial-Confiança e o BPSM e comprou o Totta e o Crédito Predial Português aos espanhóis do Santander. Ao “cesto de compras” juntou ainda o banco de investimentos Chemical Service. Tudo no lapso de dois anos e com a ajuda de polémicas decisões ministeriais que evitaram dispendiosas ofertas públicas de aquisição ao magnata. Os seus arqui-rivais defendem que Champalimaud regressou para se vingar. Com a ajuda de Cavaco Silva, comprou o que quis para depois vender aos espanhóis e realizar mais-valias. Certo é que, cinco anos após a maratona de compras em Portugal, Champalimaud fechou negócio com Emilio Botín, presidente do Santander, para a venda do património bancário e segurador. “Até vendia aos portugueses, mas tinham de me oferecer uma pipa de massa”, disse Champalimaud no meio da polémica que estalou na sociedade portuguesa. Champalimaud arrecadou 301 milhões de contos e uma participação de 3,5% do capital do Santander. Em Abril de 2004, Jorge Sampaio condecorou-o com a Ordem da Liberdade, numa cerimónia a que Champalimaud já não compareceu por razões de saúde. No seu testamento, legou 500 milhões de euros para a criação, em Portugal, da primeira fundação nacional cujo objectivo é a investigação científica na área da biomedicina. Um ano após a sua morte nasceu, então, a Fundação D. Anna de Sommer Champalimaud e Dr. Carlos Montez Champalimaud - designação escolhida pelo próprio empresário, em homenagem aos pais. “O caminho da Fundação vai ser de grande ambição nos objectivos, de exigência nos meios e de ausência de receios de provocar rupturas”, anunciou Leonor Beleza, presidente da Fundação (por imposição testamentária de Champalimaud), na cerimónia de apresentação pública, em Lisboa.
Fonte:  Grandes Portugueses

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