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Bocage
É um dos mais importantes poetas portugueses. Homem sedento de vida, Bocage era satírico, erótico, arrebatador. Entre botequins, irreverências e sarcasmo, criou múltiplas inimizades. Vagueou num tempo de mudança - ele próprio viveu em permanente inconstância de desejosos e afectos. “É um emblema de um certo espírito português, quer pela criatividade quer pelo improviso”, sublinha o escritor Fernando Pinto do Amaral. Manuel Maria Barbosa du Bocage teve uma incomparável história de vida. Ficou conhecido pela mordacidade e capacidade de improviso, que fizeram do seu nome uma lenda associada à boémia e ao burlesco. “Uma alma sem mundo, para usar o título de uma peça de Luísa Maria Martins”, diz a deputada do PCP Odete Santos. “É um poeta maldito, a quem ainda não foi reconhecido o devido valor.” Bocage, natural de Setúbal, deixou uma obra tão variada em géneros como em tipos. Do soneto à ode, da sátira ao elogio, do erotismo ao burlesco, Bocage ficou na memória popular pela boémia e capacidade de improviso entre botequins e cafés. Para lá da lenda, ele é, de facto, um dos mais importantes poetas portugueses. Admirador de Camões, revela-se já um pré-romântico. O gosto pelos temas do sofrimento e da solidão anunciavam a originalidade de um poeta que se deixava arrebatar, apaixonar. E que muito arrebatava - e apaixonava. Associado ao anedotário português, conhecido pelas polémicas e sátiras que lhe trouxeram alguns inimigos, viveu, em boa verdade, um tempo de mudança, marcado pela Revolução Francesa e o forte controlo que se vivia em Portugal quanto à chegada das novas ideias sobre a liberdade. Tal como Camões, embarca em 1786, como oficial da marinha de guerra, rumo à Índia, com escala no Rio de Janeiro, a bordo da nau “Nossa Senhora da Vida”. Parte levando consigo a memória de “Gestúria”, dama a quem dedica os seus sonetos. A Índia não corresponde, contudo, às suas expectativas. Em Goa chega a ser promovido, mas deserta, pensa-se que por dívidas de jogo. Acolhido em Macau por Lázaro da Silva Ferreira, regressa a Lisboa em 1790, saudoso de amigos e amores. De França chegavam notícias de revolução, mas em Portugal Pina Manique mantinha um rigoroso controlo sobre as ideias de liberdade que chegam da Europa. “Toda a existência de Bocage, a agitação, as viagens, a vida sem eira nem beira, simboliza o espírito aventureiro e malicioso dos Portugueses”, sublinha Fernando Pinto do Amaral, escritor e professor universitário. “É aquela mentalidade de improviso, de algum aparente desleixo, mas que depois dá a volta à situação com todo o brilhantismo.” Adorado pelos que o ouviam, sempre espirituoso e crítico, dizia os seus versos no Botequim das Parras e no Café Nicola. Levantava a mão a pedir silêncio. Tornou-se, entretanto, sócio da Nova Arcádia, associação de poetas que se encontravam nas célebres “quartas-feiras de Lereno”, em que se liam os seus poemas, escritos sob o pseudónimo de Elmano Sadino. Ao fim de uns tempos, nem mesmo os membros da Nova Arcádia escapavam à sua ironia, e acabou por se afastar do grupo. Nisso, ele era genial: tinha um toque de astúcia sarcástica. Os seus críticos acusavam-no de ultrapassar a fronteira do mais ofensivo mau gosto. Em 1797 é preso, acusado da autoria de “papéis ímpios e sediciosos contra o Estado”. Os amigos tentaram ajudá-lo, sendo transferido do Limoeiro para os cárceres da Inquisição. Condenado a ser como que “doutrinado”, é transferido para o mosteiro de S. Bento da Saúde, depois para o Hospício de Nossa Senhora das Necessidades. Ali lê, estuda, melhora os seus conhecimentos de latim, francês e italiano. Conhecimentos que usará na tradução de poemas e textos didácticos, como “Metamorfoses”, de Ovídio, “Jerusalém Libertada”, de Torcato Tasso, assim como obras de Voltaire, Rousseau e Madame du Bocage, sua tia. A experiência do cárcere parece, de facto, ter mudado o poeta. Uma vez libertado, assume o sustento da irmã e da sobrinha e passa a viver de traduções. Em 1791 publica o primeiro volume das suas “Rimas”, “Queixumes do Pastor Elmano” e “Idyllios Maritimos”. Em 1799 sai o segundo volume de “Rimas” e em 1805 edita o terceiro volume, publicando ainda nesse ano, já muito doente, “Os Improvisos” e “Novos Improvisos”. Foi, aliás, José Pedro da Silva, dono do Parras, onde viveu os seus tempos de boémia e versejador, que o ajudou a editar e vender parte da sua obra. Curiosamente, mesmo alguns dos seus declarados inimigos fazem as pazes com o poeta, que vive os seus últimos anos de vida na Travessa de André Valente, no Bairro Alto, em Lisboa. Morre, de aneurisma, em 1805. Bocage foi, toda a vida, uma espécie de namorado das letras que confessou que viveu - e como!
Fonte:  Grandes Portugueses

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